POTNIΛ




A água é um elemento de fora e de dentro de nós porque tanto participa de nossa composição químico-biológica e física quando de nosso campo psíquico. Logo, não é gratuita sua recorrência no imaginário poético. Na Odisseia esse elemento é meio onde se locomove Ulisses no retorno a Ítaca e dela surgem não apenas as grandes forças de embate com o herói como também se prenuncia o impasse entre o mundo definido pelos sentidos controlados pela astúcia — protótipo das ação — e o mundo construído pela liberdade do imaginário, força primitiva. 

É nesta senda por onde se infiltra a poesia de Leonardo Chioda em POTNIΛ. O eu-poético desse livro, que sobreviveu aos constantes embates do poeta/figura civil com a reescrita — exercício fundamental do processo de construção do objeto artístico —, é o Ulisses da epopeia clássica [ou seriam as Sereias?] cuja voz se deixa ouvir sussurrada no ouvido poma que o transmuta noutras vozes e, por isso mesmo, noutro Ulisses: o da palavra. Este é tão perspicaz quanto o herói; transita em um mundo degradado, entre escombros, reanimando símbolos e formas, recriando-os a uma maneira a trajetória fundadora de toda atitude heróica. Sua atitudes é o poema e sua gênese. Trata-se de um livro que almeja ser o lugar de trânsito entre a agitação do pensamento e o cultivo lapidar [e racional] da construção poética.

Este é um livro de resgate e de um resgatado. Primeiro porque encontramos o estreito diálogo com uma extensa ancestralidade do homem, capaz de nos colocar dentre os escombros de um tempo curtas formas ainda eram, mesmo que variadas, um todo informe  como terá se tornado em quando da cisão que nos coloca em permanente conflito com o mundo. É este, inclusive, o gesto fundador da viagem homérica: o desafio do herói para com os deuses assinala a cisão entre o homem e o mundo. Na mesma posição, o poeta responde ao desafio da palavra. Este tempo outro, entrevisto nos poemas de POTNIA, nos chega descontinuado e insinuado elo olhar meticuloso do poeta sobre o seu entorno.

A poesia de Chioda é puro ato de insinuar-se. Ora, nosso tempo já não é para grandiosidades. Somos resquícios e o que nos resta são revelações. O poeta é o mago do nosso tempo, o capaz de oferecer sua leitura dos laivos que avultam sem nossa percepção, por entre os gestos de perquirição imaginativa de um minerador que cavouca os silêncios na busca de uma pedra para lapidar a palavra de consolo ou de danação.

Água e palavra são de natureza limiar. Está aqui a chave para o universo de POTNIA, entre o fazer e o desfazer de sentidos — este princípio crucial da linguagem, que é representar e acrescentar —, o poeta constrói sua obra. Não mera catedral de palavras.

Todos os poemas até o ciclo designado ‘Axioma’ estão ao mesmo tempo fechados na navegação pela feitura do grande poema enunciado pelo título do livro. Só depois é que o grande poema, como aquela flor drummondiana, se abre. Quando suspeitamos que esta obra de Leonardo Chioda emerge dos sussurros das Sereias a Ulisses enquanto forma que converge razão e imaginário, este outro Ulisses que se mostra como eu-poético é forma híbrida. Tomado pelas vozes, o herói também se converte em limiar e, logo, figura mista: tocado e não tocado pela força sedutora das Sereias. Essas vozes que se indeterminam, que são juntas e não são, confluem com o princípio definidor de POTNIΛ, o grande poema que se quer ‘formar’ com voz híbrida. Este poema, a todo tempo indiciado como tal porque seu tempo é este — líquido, fractal, impossível de responder por uma determinação obtusa — alcança nesse impasse a sua grandeza.

Ao mesmo tempo que introduz novas inflexões na lírica contemporânea brasileira, entrelaçando-a a uma tradição ocidental [aliás, este é um dos trabalhos mais ardilosos em que uma variada produção literária se filia desde quando as criações se centravam apenas no exercício de cópia do clássico], POTNIΛ nos leva ao tempo do ato poético enquanto pulsão, força sublime. Essa característica se deixa ouvir desde alguns dos poemas de Tempestardes [Patuá, 2013], o livro de estreia de Chioda, já dotado de algumas ambições aqui colocadas em prática — as demonstrativas de que estamos ante um afeito em conformar uma trajetória interessante de se acompanhar de muito perto.

O poema tal como sentença de um oráculo nunca foi de nos deixar dizer que ante nós estamos confortáveis. Sempre nos foi enigma e confronto. Confronto porque enigma. Não nos deixemos levar pela superfície lisa ou agitada da água. Cuidemos que sua movência nos exige a posição de estarmos em alerta. Tal como Ulisses antes o canto das Sereias.


Pedro Fernandes • blog Letras in.verso e re.verso
Professor de Teoria da Literatura da UFERSA e editor da Revista 7faces.




• edição: Vanderley Mendonça
• booktrailers: Mariana Waechter
• capa: Leo Chioda + Vittore dei Ravani
• distribuição: Selo Demônio Negro + Editora Hedra


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