tempestardes




Tempestardes é primeira reunião de poemas de Leonardo Chioda. O livro foi selecionado pela Editora Patuá para integrar a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC 2012 — Prêmio de Ação Cultural da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo. O prêmio possibilitou a publicação de 12 títulos inéditos de poesia brasileira em 2013, cada um com tiragem de 1500 exemplares. Do total de 18.000 livros impressos, mais de 3.600 exemplares foram distribuídos gratuitamente para as Bibliotecas Públicas do Estado de São Paulo.  Foram realizados dois lançamentos: o primeiro em São Paulo, no dia 21 de junho de 2013, na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. O segundo em Jaboticabal, no dia 8 de novembro de 2013, na Escola de Arte 'Prof. Francisco Berlingieri Marinho'.

O livro é prefaciado por Rosane Carneiro, poeta carioca, e apresentado por Ana Maria Domingues de Oliveira, professora aposentada do Departamento de Literatura da UNESP de Assis. Traz também um depoimento do poeta português Miguel-Manso. 


Confira abaixo algumas das principais resenhas e críticas de escritores e especialistas.




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uma poética da anunciação

DIÁRIO DA MANHÃ DE GOIÂNIA ●  18 de agosto de 2014


Peculiaridades e sutilezas marcam Tempestardes (Ed. Patuá, SP, 2013, 144 pgs), livro de estreia de Leonardo Chioda. Paulista de Jaboticabal, formado em Letras pela Unesp e tendo estudado literatura italiana, poesia portuguesa e história do teatro na Universitá degli Studi di Perugia (Itália), conjuga a criação poética a um mergulho profundo na transcendência. Além do ofício literário, o autor dedica-se aos oráculos e à iconografia como estudioso e praticante do Tarô, o que lhe confere uma visão científica e cosmológica do mundo aliada ao universo metafórico e metafísico da palavra. 
Na fusão desses dois mundos, em que o onírico e o real se imbricam, em que o que se tangencia pelo olhar ou se comunica pelos versos, estabelece uma relação simbiótica entre o que se ente e o que se busca no mistério do que nos rodeia, os poemas de Chioda desvelam a apreensão do que é realmente essencial e profundo na natureza (dos homens e das coisas, dos acontecimentos e dos sentimentos). Embora flertando com os signos desse ambiente em que as cartas e os elementos ligados à arte esotérica são (pre)dominantes, não se percebe na sua poesia o engajamento ou o sectarismo retórico. E ainda que cada palavra seja ressonância desses portais do conhecimento, não se percebe na linguagem qualquer exacerbação de suas projeções mí(s)ticas. Mesmo que da intimidade (ou fluência) de seu olhar haja a intensa e densa preocupação com a busca do sentido sagrado e/ou oculto de tudo, o que emerge de seu artesanato é a força semântica e dialética de um discurso poético sem a contaminação de um único signo, a escritura esparrama múltiplos tentáculos e os significados se ampliam ou amplificam a voz interior. 
Seus sinais são multívocos, representam todos os prismas (des)conhecidos de uma mesma joia ou ideia, tanto que ao falar de nosso estar-no-mundo, Chioda propõe em ‘Poética do Destino’ sua concepção apriorística do ser/existir: “O destino não tem rosto/ só um cristal negro de sete pontas perpétuas/ (…) / o destino tem a boca de florilégio — um mosaico” / e é nesse percurso que se constrói toda sua arquitetura poética, como percepção da vida como caleidoscópio, ou como invocação de uma permanente metamorfose; o eu poético como alavanca do eu humano, instância em que nada está definido ou acabado, o devir em estado de êxtase. 
Em sua estreia, Leonardo Chioda não deve nada, não paga pedágio aos autores estabelecidos, porque já nasce com a segurança, autonomia, independência e uma inigualável substância erudita, condição rara. É um autor atavicamente enraizado na cultura clássica e no conhecimento científico, sua arte faz conexões entre Mallarmé e Augusto dos Anjos, dialogando não apenas com seus pares, mas com outras linguagens e vertentes, como se nota no forte acento filosófico de que está impregnada sua leitura do universo, referenciais importantes na sua formação humanista, que assimila um acento crítico e questionador. 
Em Tempestardes, estão presentes os gurus de Chioda, principalmente bebendo nas fontes da literatura lusófona e espanhola, além de uma simbiose com a mitologia de outros tempos e povos: de Sísifo a Prometeu, da Grécia aos Incas, a sua lavratura estende o necessário fio de Ariadne para que possamos sair ilesos do labirinto de nosso próprio caos ou condição existencial. Frisa-se, ainda, que mais que uma homenagem aos seus mestres e influências, o trânsito estético de Leonardo é também uma busca de uma consciência ética nas vozes de Herberto Helder, Eugenio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Gabriela Llansol e Maria Teresa Horta; na bibliografia de Hilda Hilst, Cecília Meireles, Pessoa, Murilo Mendes e Sylvia Plath; na comunicação com Lorca, Björk, Devendra Banhart, Jane Birkin e Blaise Cendrars. Na raiz poética de Chioda, seus versos se imantam do sagrado e do profano que há na exegese desses autores e que repercutem em sua geografia íntima.
Estamos diante de uma criação poética reveladora, polifônica e polissêmica, em que a diversidade de temas e a versatilidade do olhar poético culminam num facho que clarifica os caminhos a partir do próprio reconhecimento dos escombros. Do cipoal das contradições que nos atormentam, emerge a luz de uma inflexão cósmica, quando “o poeta se mede/ a partir do emaranhado que dispõe” / para reconhecer “a geometria/ do desterro”. E, para além do enigma que a tudo preside, realiza a necessária hermenêutica de si, quando proclama: “me transformo/ e em pé triunfarei hoje cedo/ saberei que mais tarde venci/ e não haverá passado que não é/ o meu futuro”. Mais que uma obra poética, Tempestardes é um inventário plurissignificativo, é arquitetura de artista comprometido com as angústias e emergências não apenas da condição literária mas da própria existência, escapando aos modismos de uma literatura de mercado, que têm empedernido o exercício poético nesses primeiros anos do novo milênio, regido pelos fetiches da cultura de massas e da implacável violência das relações virtuais impostas pela era atual, de extrema profusão tecnológica e negação dos sentidos.
Chioda sacode justamente essa tirania aviltante do supérfluo que contamina todas as artes para propor uma implosão desse cânone dominante (o mais do mesmo que aí está). Sua poética anuncia , como bem reconhece Rosane Carneiro ao prefaciá-lo, “outra forma de escritura, novo modo de procura, mais leituras e visões a caminho”, para assegurar-nos, na mesma linha de Octavio Paz (“O poema é uma obra sempre inacabada, sempre disposta a ser completada e vivida por um novo leitor”), ou no mesmo diapasão de Herberto Helder (“O poema faz-se contra o tempo e a carne”), sua disposição de desnudar os portais do (re)conhecimento de si e da poesia: “dispo o poema/ como quem ocupa as raias/ à luz da filologia/ sentindo as linhas das palmas/ de toda estrofe/ o músculo de cada letra/ ao qual me venço…”
Um jovem poeta porém amadurecido intelectualmente que, ao harmonizar forma e conteúdo, desfere um agudo espírito escrutinador nos insondáveis mistérios que nos atormentam, e traz “luz/ e alguma promessa” nesse ambiente literário em que vivemos, tão viciado e sem norte.


Ronaldo Cagiano, escritor, reside em São Paulo. 








Tempestardes, de Leonardo Chioda

LITERATURA E ARTE ●  26 de julho de 2014


Este é um mês de tempestades e de descobertas. O que me faz dizer que nunca é tarde — como em Tempestardes — para esperar por um bom livro, que nos apeteça e nos desperte uma vez mais e sempre para o enorme gozo da leitura. O autor, Leonardo Chioda, é jovem e muito conhecedor da literatura portuguesa contemporânea. Herberto Helder destacado de longe, numa aprendizagem do desmanchar e do fundir imagens e palavras que renovam e fazem voar o verso. Mas há outros poetas da nossa modernidade, passando por aqui, como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Gabriela Llansol, Ana Luísa Amaral e Teresa Horta que abre em epígrafe o início da "Víscera da Musa", com o seu belo verso:

Vem tempestade
vem luz
de alumiar o destino

Belo começo, que alumia o livro à nossa frente. Antecedido por um prefácio que elucida o caminho, os estudos, as viagens por paisagens reais e literárias, da autoria da professora Ana Maria Domingues de Oliveira, vemos mais uma vez como é importante a relação que se pode (deve) estabelecer entre quem ensina, amando o que ensina, e quem aprende, pois aprender é o início de todos os inícios e será o fim de todos os fins que se consigam.
Leonardo Chioda faz parte desta geração a que já aludi, com Andrei Sen-Senkov e Sveta Dorosheva: jovens, viajados, lidos, cultos acima da média, e tendo por isso uma capacidade de criação original, diversa e muito diferente do que se descobre nas estantes das livrarias. O seu Verbo é atrevido, constrói e desconstrói, suga imagens em verdadeiras cartas de destino, ou segue indiferente por trilhos que outros abandonaram: perigosos por vezes, carregados de sombras e de  mitos, sabendo no entanto que os mitos são o que são, projecções que só cada um saberá entender. O poeta é e será sempre, mesmo ao comunicar o seu verso, um Ente solitário.
Andrei, que é médico, exerce a sua profissão numa Rússia problemática, alarga o verso ao espaço da comunidade e às feridas que cose. Encontrei-o no Facebook, que parece, o espaço dos encontros para mim mais felizes. Foi também por aqui que nos encontrámos, Leonardo e eu,  por muito que não se goste: o Facebook, se proporciona inusitados encontros, também revela frequentemente a vacuidade das horas e do tempo — leia-se das cabeças! Mas neste caso o encontro, bafejado pelas estrelas (?) foi o melhor que me podia suceder. Eu ia reler Dom Casmurro, essa obra-prima, clássico dos clássicos, pensando que não teria, nas férias, autores que me agradassem. Eis que finalmente chega, pelo correio, o volume das Tempestardes. Amo a poesia e amo todos os poetas que escrevem, como se fosse respiração natural a sua poesia. Porque no poema se desvendam almas e destinos — o destino poético é de todos os caminhos o maior, e as almas precisam dele.
Entrando pelas palavras dentro, e sabendo-se que Leonardo é tarólogo, fui visitar o seu blog Café Tarot. Estudou literatura e, entre outros que cita, vemos um Bachelard a par de uma peça de Versace. E com outros exemplos do género, concluímos que o olhar deste poeta é abrangente, que tudo o que rodeia é ou pode ser momento ou fonte de inspiração: Andrei cose feridas, Leonardo entretece destinos, do Verbo ou das mais humildes palavras. Porque nele veremos que tudo é Um, como se diz na hermética Tábua de Esmeralda que certamente leu, ainda que em partes. O seu vocabulário alimenta-se de todos os vocábulos, das ciências literárias às ciências naturais, à botânica ou pura e simplesmente brinca, porque o som lhe pede que o faça, alargando o sentido:

vai pelos confins do texto
no sentido litoral da palavra

Somatórios de acaso (mas serão apenas de acaso ou imagens recuperadas do fixo acordar do sonho ou da carta tirada?)

contorna o atalho da palavra
de índole harpa
na rota clepsidra
semelhante ao regresso espelho

desvela o símbolo (...)

a anulação dos verbos, dos adjectivos, deixando flutuar a palavra, a harpa, a clepsidra, o espelho — no espaço azul do símbolo — remete para segredos mais íntimos. Terá de ser o leitor a decifrar. Ou medita, ou repete, ou deixa de parte até novo momento, e aí, como no Éden antigo, descobrirá " os frutos assombrosos". Podíamos seguir os títulos: Sísifo, por exemplo (p.35), abre com um "infinito" e segue por um encadeado de rimas internas, todas em i, que apanham o leitor desprevenido, pois de tal alusão ao mito de um Sísifo de cruel castigo se esperaria, quem sabe algum sabor mais trágico — pois não, e habituem-se — o poeta despe os seus mitos como despe as suas palavras, os seus versos, até ao acaso, ocaso da linguagem! Estamos perante uma obra em que se

desconfigura
a órbita dos mandalas


E o verso pode ser ainda mais, ser animal, como quando nos lança em desafio a utilização do verbo "panterar". Caeiro gostava de pastorear o seu rebanho, o seu rebanho eram as suas ideias; ideia de árvore, mais do que o sentimento do que esta ou aquela árvore despertasse nele. Já Leonardo Chioda anda a "panterar" com os seus versos, todos os seus sentimentos, todas as suas sensações de cada momento.Não abstrai, concretiza, funde, devora. É outra modernidade a sua. Não cabe aludir a tudo. Mas cabe uma alusão, que alimentará estas e outras ilusões de que a poesia pode ainda salvar o nosso mundo.


Yvette K. Centeno é poeta, ficcionista, autora dramática, tradutora, doutorada em Filologia Germânica e docente na Universidade Nova de Lisboa, onde dirigiu o gabinete de Estudos de Simbologia. 










a poesia de estreia de Leonardo Chioda

LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO ●  18 de julho de 2014



confesso que sou tarde mas entendo
lá vem alva a noite
de estrelas baixas, próximas
do teu ventre tatuado


O que sugere um título como Tempestardes? Ou os versos de “Maga Luna (romance no Caffè Florian)” colocados à abertura deste texto? Primeiramente de não estamos diante de uma chuva passageira de palavras cujo fim deságua em nada. O engendrar de signos já nascido no termo que acolhe esse conjunto de poemas e a transmutação do eu poético em natureza e força temporal sugere que o leitor tem por adiante não mais um título de poesia para fazer volume na estante, mas um relicário doce, complexo e inventivo, três qualidades muito caras à poesia ou ao estado poético que não estão acessíveis de maneira gratuita no universo da criação. São qualidades que exigem sensibilidade, outra forma de inserir-se no mundo – ainda mais complexa se pensarmos que habitamos e somos habitados por um desencanto profundo – e, por fim, criação. Sim, que o poema não se presta à qualidade de representação, mas é um objeto próprio situado como matéria existente.

Mais que um primeiro livro, Leonardo Chioda quis ser uma voz nova no extenso cordão de vozes erguidas ao longo da libertação das formas poéticas e no já extenso rol de nomes que compõem aquilo que chamamos por tradição. Se pensarmos na cena contemporânea, então, não faltarão motivos para dizer que estabelecer uma voz é mais que um desafio é uma maneira dada a poucos. Claro, essa afirmativa, considera que, na atual conjuntura a cena literária brasileira alcança um número diverso e forte de obras do gênero.

Logo, se ninguém tiver dito que, na primeira tentativa, Chioda conseguiu aí estar, que seja dito pela primeira vez; se alguém já tiver reparado, bem, fique então corroborada a opinião que não é alheia, portanto. Nesse ínterim, a criação, o maior dos dons de um poeta, não é desperdiçada com matraquear de palavras ou construções simplistas, Tempestardes (Editora Patuá) não retoma correntezas e nem reforça vozes. Tempestardes que ser um fio a mais, uma voz a mais.

Daqui para adiante, o poeta já tem plantada as bases de todo um projeto literário se assim quiser: a revigoração do clássico pelo olhar aguçado do poeta imaginativo; a revigoração da palavra pela capacidade de exercício léxico-gramatical; a transformação da experiência em existência pura. No livro todas essas possibilidades não aparecem individualizadas, mas integradas como se juntas pudessem melhor colocar o poema em funcionamento.

Os elementos motivadores desses textos também são diversos: o tempo e suas fronteiras, a palavra e seus domínios, a imaginação e a existência, o mito e o sagrado, as coisas palpáveis e as abstrações, os lugares vividos e os da ficção. As influências, que nenhuma voz se põe solta no deserto, estão marcadas direta e indiretamente em toda parte e se porta de igual maneira dos elementos motivadores: Maria Teresa Horta, Alejandro Zambra, Sergei Parajanov, Leonardo Cohen, Debussy, Federico García Lorca, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Blaise Cendrars, Fernando Pessoa, Shakespeare, Herberto Helder, Leminski, Murilo Mendes, Sylvia Plath, Ana Luísa Amaral, Maria Gabriela Llansol e outros.

Tanto assim se mostra as bases de um projeto poético que pode tomar uma forma grandiosa no futuro como pode ainda servir de um único livro de uma existência, embora saiba que a primeira via é a mais coerente. Um poeta pronto que renuncia à palavra é uma linha a mais na ordem do desencanto do mundo – ainda mais no Brasil cujas vozes poéticas, mesmo em toda parte, e mesmo em grande parte fortes se deixam muitas vezes perder-se no interesse escuso do ofício e alia-se às vias do mundo ordinário apenas em nome de uma multiplicação exagerada da imagem nos holofotes. E praticam um trocadilho verbal doente garantidor de uma leva de seguidores anônimos igualmente apáticos acreditando que dizer poesia é só desdizer. A leva de nomes citados acima, por plural que seja se acomoda por um traço – um poeta é aquele que tem a humildade de se irmanar na voz dos grandes, não para querer ser eles, mas para quer ser voz entre eles.

Tempestardes não é ainda apenas um livro de poesia; é uma antologia. As três posturas do eu-poético sobre as quais quisemos qualificar no meio deste texto apresentam-se em três unidades marcadas por formas e exercícios próprios: “víscera da musa – trajetos e presságios de quintais e outros corpos”; “azulantigo – poemas netunos e ladrilhos {para amansar e revolver o mar}”; “górgona a caminho – 7 feitiços de amor e não”.

Juntos, três cadernos de exercício para enlarguecer silêncios, corromper sintaxes, inventariar temas, propor novas existências, tudo um jogo silencioso contra a excrescência, ora tornando o poema corpo – “desvela o símbolo, habitado / a ponto de cometer pixídio, no / voo que segue suga na vírgula / predição do meimendro” (de “Os verbos de veneração”), ora tornando corpo o poema – “herda a pele / o âmbar das núpcias // é corrupta a imagem / minoica / das tuas levas // são espirais sobre a derme do momento / a ponto de – / cantar as rédeas” (de “Tatuagem”).

A diversidade é outra forma de mover-se entre a complexidade do mundo, cujo universo de signos encontra-se, por vezes tomado por uma conjuntura esvaziada de sentido. O exercício poético ou o trabalho com a palavra desenvolvido por Chioda não quer coadunar com isso; por isso a diversidade adquire aqui outra forma de romper com a decadência do poema. Assume-se numa maneira de escapar ao solipsismo do verso. Em tempos de relativismo e de multiplicidade de pontos vista, a diversidade é também uma maneira de sua negação e integração num mundo cuja reinvenção do aparente deve sempre ser o grande desafio de todo artista. Assim, a poesia de Chioda se constitui como instrumento crítico contra as falácias do exercício poético, cada vez mais comuns na contemporaneidade.

Se um livro de poesia se apresenta sempre como um artefato para implosão do comum – até mesmo das formas de ler – Tempestardes se mostra como uma implosão também da forma de ler poesia; que não é possível ler e num mesmo dia voltar ao livro ou mesmo ao poema. É necessário ler e ficar por dias remoendo as existências da palavra e os sentidos provocados por ela – exercício que tivemos o cuidado de poupar o leitor numa leitura como esta porque é um adendo a convidá-lo para vivê-lo in loco na leitura da obra ora em questão.


Dois poemas de Tempestardes



CRIAÇÃO

depois do início eram os olhos
multiplica-se coxas de flores in vitro

perfume almodovariano
alastrado da íris-punho ao ventre polissêmico
sem ventilação tal qual casarão da carne durante o
abraço das heras vindas

sobre o tecido esponjoso programa-se a horta oceana
espuma a partir do esboço lírico, este terreno dançando
e refém da erva

geração bethânia
fratura imposta na raiz do espasmo,
no carro triunfal destila a mátria
reluz o pólen
um cabaré cítrico

Homo ludens à ferrugem luz de velas
ave da vida néctar no talho da argila

faz-se o jardim
matiz e verso. golem.




UM FAUSTO

quanta vantagem
sobre o erro

tem o demônio
da certeza

no rolar do precipício
em carne



Pedro Fernandes é professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) e editor do caderno-revista 7faces, do blog Letras in.verso e re.verso e da Revista de Estudos Saramaguianos.









um vitral abrindo-se para o céu

MUSA RARA ●  15 de setembro de 2013

Conheci Leonardo Chioda primeiro como estudioso do Tarot e me impressionou não apenas sua erudição mas, sobretudo, sua visada simultaneamente imersa na contemporaneidade e na ancestralidade, além de uma plasticidade muito própria em lidar com os signos. Ao conhecer sua poesia, a admiração aumentou por perceber que a palavra poética e a dimensão oracular se dão as mãos na sua experiência como criador/leitor do mundo. Assim, é com grande alegria que chega até mim o primeiro livro de Chioda, Tempestardes (Patuá, 2013).
Já a partir do excelente título, o livro convoca a uma experiência dos sentidos, como deve fazer e ser toda boa poesia. Evocando Bachelard, as palavras e arranjos escolhidos pelo poeta pensam, sonham, criam formas vivas. Chioda estabelece um jogo no qual o mínimo se expande e se dilata, o musgo abrindo-se para o vitral, o vitral abrindo-se para o céu, o céu para o inominável. No poema Fluxo. Labirinto., os primeiros versos são exemplares: “as paredes descascam. não se vê com clareza, nem pelo fio/delicado da suposição, o que há por trás da tinta de dois séculos/ tudo dói antigo (…)”. Em Epitalos, o mesmo procedimento: “terra tal concha/sevilhana, fértil/como alamedas de azulejos/ à vista dos vitrais. só falta/ saber-se”. Muito embora solicite um olhar contemplativo é na ação que essa poesia se espalha.
Aliás é bastante apropriado convidar Bachelard para tratar da poética de Chioda, posto que este parece ter tomado ao filósofo francês como mestre condutor senão do seu ofício, ao menos desse primeiro livro. Estão em Tempestardes as tensões entre exterior e interior, uma inclinação para a imensidão/intimidade, as concavidades e convexidades das pequenas coisas, uma preferência pela oposição complementar entre efemeridade e cosmicidade. No poema À Singela Botânica dos Sonhos será o próprio Bachelard a surgir, palavra e deus tornado verbo, “o olho se pondo/ a te Bachelard no original”.
Há, ainda, nessa poética, um sentido de organicidade que sai do mundo natural para o mundo das coisas, a vida que pulsa nos morangos e que ondula nas águas contamina azulejos, ladrilhos, vigas de ferro, dá ossatura, nervos, pêlos crispados às próprias palavras. O poeta adverte, “o encoberto é sempre novo/ vida ladrilhada” (Azul Antigo). E “há de se ler as pedras. os dedos na relva, sentindo o mármore – as capas/dos livros. sentir o assombro aberto em tempo./ a circunferência da memória – a árvore está, pois, / sempre na semente. ainda o ninho cujo segredo, minha/ dívida,/ é escutar a flor” (Túmulo do Poeta).
O imaginário de Chioda é tomado por uma botânica particular e um bestiário próprio com os quais fabula e confabula: jaguares, sereias, leões, tigres, gárgulas, meimendro, sálvia, hera, bácaro. Como investigador das artes divinatórias não se pode esquecer que algo de mágico e solene se coloca no percurso do livro. O que poderia, em outro caso, parecer forçado, em Tempestardes flui, por não ser justamente colocado como centro. Trata-se de dosar opharmakós para que seja veneno quando precise ser veneno, remédio quando precise ser remédio.

É sem dúvida uma boa-nova a publicação desse livro, um belo livro de estreia. E se estou atrasada para dizer “imprima-se!”, nunca é tarde para recomendar: “leia-se!”. E para concluir, um dos belos momentos do livro:



PRECE DA TARDE

azul na terra
como no céu





Micheliny Verunschk é autora dos livros Geografia Íntima do Deserto (2003) indicado ao Portugal Telecom), O Observador e o Nada (2003), A Cartografia da Noite (2010), B de Bruxa (2014) e Nossa Teresa — Vida e Morte de uma Santa Suicida (2014), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.